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| ROTEIRO INTERATIVO |

ESCOLHAS (CHOICES)

ROTEIRO 

 

1. EXT. FAVELA – DIA 

 

TELA PRETA.

 

Barulhos… Polícia, tiros, correria, barulho de carro, pessoas gritando.

De repente, um SILÊNCIO “ENSURDECEDOR”.

A imagem entra em CÂMERA LENTA: o caos na favela. Agora não tem áudio, somente a imagem em câmera lenta e um “barulho” de tensão, como se fosse um grito sufocado.

Policiais se retirando da favela, pessoas feridas, assustadas, alguns corpos sem vida pelo chão.

Uma MULHER corre aos berros e choro que não se podem ouvir em direção ao seu filho, que se encontra debruçado em cima de um corpo sem vida no chão.

Eles se abraçam em um choro doído, sem voz.

O filho mais novo dessa mãe é CARLOS, com seus 17 anos de idade, ali debruçado no corpo sem vida de seu pai, mais uma vítima da guerra do tráfico na favela.

Carlos se levanta e sai caminhando sem rumo no meio daquele caos sem som.

 

2. EXT. PICO DA FAVELA – DIA

 

Carlos sentado em silêncio em um pico alto da favela.

Finalmente ele dá aquele grito! Sabe aquele grito do Rodrigo Santoro no “Filho de Todos os Homens”? Esse!

Depois de seu grito ecoar pela favela, Carlos quebra a 4ª parede, olha para a câmera com uma revolta no olhar e diz:

CARLOS (V.O.)

Esse grito é por tudo o quê eu vivi até aqui e por tudo o quê eu sei que vou ter ainda que passar. Estão preparados?

Carlos volta à cena olhando fixo para o horizonte e cai no choro.

BLACK.

 

3. INT. BARRACO DE CARLOS – MANHÃ

Dia nasce na favela… o galo canta. (O tempo volta)

Dentro do barraco, a família de Carlos senta à mesa para tomar café. Tudo muito simples, eles tomam cada um uma xícara de café preto e dividem um pão com manteiga.

A mãe parece preocupada, olhando pela janela o tempo todo, aflita.

 

PAI

Notícias do vagabundo?

 

MÃE (voz embargada)

Já faz alguns meses… não sei onde está, se está vivo, se está comendo, se está se alimentando…

Pai abraça a esposa.

 

PAI

Eu vou encontrar esse moleque e trazer ele de volta nem que seja a última coisa que eu faça na vida. Eu te prometo.

O pai dá um beijo na testa da esposa, um beijo na cabeça de Carlos e intima:

PAI

Escola!

Ele pega seu capacete de pedreiro e sai para trabalhar.

 

Carlos na mesa, observando a cena, quebra a 4ª parede e fala:

CARLOS (V.O.)

O vagabundo é meu irmão mais velho Júlio. Se envolveu com drogas e hoje vaga pela favela com sua gangue de drogados e traficantes. Minha mãe desde então só chora!

Imagens de Júlio na quebrada vendendo drogas, andando armado.

 

Carlos volta à cena, dá um gole de café já frio, pega dois cadernos velhos e uma caneta na mesa e se despede.

 

CARLOS

Tchau mãe, tô indo.

 

MÃE

Vai com Deus, filho. Estuda filho, para você ter melhores escolhas na sua vida.

 

Carlos sorri preocupado e sai.

 

CARLOS (V.O.)

Ela tá certa, mas quando se nasce pobre, preto e na favela, suas escolhas talvez não sejam totalmente livres. Mesmo assim, seguimos na fé.

 

Trilha sobe. Samba, funk… som da favela.

 

4. EXT. ESCOLA – MANHÃ

 

Imagem de Carlos chegando na frente da escola. Encontra seus dois melhores amigos: BUGA e ALICE.

Cumprimentam os brothers e Carlos se vira para a câmera.

 

CARLOS (V.O.)

O Buga e a Alicinha são meus melhores e únicos amigos desde que cheguei aqui no bairro, com 5 anos de idade. O Buga é meu melhor amigo, o mais inteligente de nós e tem um jeitinho especial de pensar e se expressar. Já a Alicinha… Ah, a Alicinha… penso que ela é a pessoa mais maravilhosa que conheci em toda minha vida. Depois da minha mãe, é claro.

 

(olhar e sorriso apaixonado)

 

Alice dá um chacoalho nele.

 

ALICE

Olha lá… aquele não é seu irmão, Carlos?

 

Júlio passa com uma galera da pesada, encara Carlos e vira as costas.

 

CARLOS

Júlio! Júlio!

 

Júlio ignora e continua andando, seguindo seu bando.

 

ALICE

Eles estão armados, Carlos… onde seu irmão foi se meter?

 

CARLOS

Ele saiu de casa faz uns meses. Preciso saber em que quebrada ele tá parado. Vou atrás deles.

 

BUGA

Não vai… não vai… não vai. Se eles pegam a gente, cortam o nosso pescoço e jogam no rio, como fizeram com o filho da mãe Carmem.

 

Carlos não dá ouvidos e vai atrás do irmão.

 

BUGA

Teimoso…que saco!… não vou deixar você ir sozinho.

 

Alice também segue junto.

5. INT. TERREIRO DA MÃE CARMEM – DIA

 

Música de terreiro. Pessoas na gira cantando, batendo palmas.

O pai de Carlos está recebendo um passe da MÃE CARMEM.

 

MÃE CARMEM

Meu fio, eu perdi um filho para a morte… que não volta mais, que hoje está em outro plano. Já o filho do senhor está perdido pra vida. Ele não quer ser salvo. Ele já escolheu o caminho dele. E esse caminho é de sombras… não se atreva, se for atrás dele, não vai mais voltar.

 

Pai de Carlos recebe a benção e sai pensativo.

Sons, palmas, confusão mental…

 

6. EXT. FAVELA – DIA

 

Carlos, Buga e Alice seguem o bando de Júlio pelas vielas e trincheiras da favela.

Até que avistam o grupo reunido em um bar de esquina, numa ruela sem saída, dominada pela facção, onde os traficantes se reúnem para beber e falar de negócios.

Carlos faz sinal de silêncio para os outros dois e quebra a 4ª parede.

 

CARLOS (V.O.)

Meu irmão nunca se conformou em viver na pobreza. Sempre quis ter dinheiro, ter carrão, viver igual playboy. Mas ele não nasceu rico, então escolheu ser bandido. Aquele ali com a mina no colo é o chefe deles daqui da quebrada. Se bem conheço o caráter do meu irmão, não demora para o Júlio passar ele.

 

Imagens do irmão no bar, enturmado, rodeado de mulher, bebendo, rindo alto, ostentando, chegado do chefe e na moral com todos ali.

 

O chefe bêbado se levanta da cadeira e dá um tiro para o alto, gargalhando, mostrando poder.

 

Os três se assustam.

 

BUGA

Vamos sair daqui, seus malucos.

 

Os três correm para longe dali.

 

7. INT. CASA DE CARLOS – NOITE

 

Mãe de Carlos em casa, orando de joelhos em seu pequeno altar com a foto de Júlio embaixo do copo de água e ao lado, uma vela acesa.

Ela se levanta e vai para a cozinha achar algo para o jantar.

No armário antigo: um saco de macarrão, arroz e um pouco de pó de café.

Na geladeira: três tomates, uma margarina pela metade, um litro de leite e uma garrafa de groselha.

 

Carlos chega em casa.

 

MÃE

Olá meu filho, como foi na escola?

 

CARLOS

Tudo bem, mãe.

 

MÃE

Tá com fome? Vai lavar as mãos.

 

Carlos lava as mãos observando a mãe colocar um prato de macarrão e um copo de groselha na mesa.

 

Carlos lavando as mãos, quebra a 4ª parede.

 

CARLOS (V.O.)

Aqui em casa nunca teve fartura. Teve “faltura”, falta sempre uma coisa ou outra. Meu pai e, principalmente Dona Preta, como minha mãe é carinhosamente chamada por muitos e não tão carinhosamente por outros, se viravam nos 30 e nunca nosso prato ficou vazio.

 

(Encara a câmera através do pequeno espelho do banheiro em silêncio,  enquanto seca as mãos)

Carlos senta à mesa, faz uma oração e começa a comer.

 

8. INT. QG DOS TRAFICANTES – DIA

 

O DECÃO, chefe da quebrada, recruta Júlio.

 

DECÃO

Falei pro Big Boss de você. Ele quer te encontrar. Agora só depende de você. Eu tô dando esse empurrão, irmão. Vai lá e resolve.

 

JÚLIO

Não vou fazer feio, irmão. Tamo junto. Gratidão.

 

Aperto de mão forte. Olho no olho.

 

DECÃO

Outra coisa: vamos ficar espertos que a coisa tá esquisita aqui na favela. Os polícia recuaram e meu informante na civil avisou que estão planejando subir.

 

JÚLIO

Vou juntar os homens e reforçar a segurança.

 

 

9. INT. CASA DE CARLOS – NOITE

 

Carlos e a mãe comem.

 

Seu Antônio chega quieto, pensativo.

 

SEU ANTÔNIO

Meu filho, sua professora disse que você não foi à aula hoje. É isso mesmo?

 

DONA PRETA

Como assim você não foi à aula, Carlos?

 

Carlos, cabisbaixo, permanece em silêncio.

 

SEU ANTÔNIO

E tem mais: fiquei sabendo que você tava atrás do Júlio. Em que quebrada seu irmão se esconde? Fala agora, Carlos!

 

CARLOS

Ele tava armado, pai.

 

Dona Preta deixa cair uma lágrima.

 

SEU ANTÔNIO

Eu preciso falar com meu filho nem que seja uma última tentativa.  Me diz onde ele está AGORA!

 

Carlos concorda com a cabeça. Seu Antônio o abraça.

 

 

10. EXT. FAVELA – DIA

 

Imagens de Drone desce.

Pessoas nas ruas. Comércio. Homens da facção armados se movimentam.

 

DECÃO

Hoje o bicho vai pegar aqui! Se esses fardados subirem, é bala neles! É atirar ou morrer!

 

Júlio cheira cocaína, pega seu fuzil e sai confiante.

 

JÚLIO

Deixa comigo. Vamos encurralar esses caras. Aqui eles não chegam!

 

11. EXT. ÁREA DA FACÇÃO – DIA

 

Seu Antônio caminha firme pelas vielas.

É interceptado por dois homens armados.

 

HOMEM

Tá indo onde, consagrado?

 

SEU ANTÔNIO

Eu vou subir e vou falar com meu filho.

 

TRAFICANTE

Que porra de filho? 

Carlos insiste em tentar atravessar a barreira.

O traficante o aponta a arma.

 

Júlio aparece, olha para os olhos do pai e dá as ordens

 

JÚLIO

Solta ele… deixa ele ir embora.

 

SEU ANTÔNIO

Eu vim te buscar, meu filho.

 

JÚLIO

Seu filho não tá aqui mais. Aqui é outro Júlio. É melhor o senhor ir embora, que as coisas vão ficar tensas aqui.

 

Júlio dá as costas. Os capangas fecham o caminho e mandam Seu Antônio sair.

 

Imagens de Seu Antônio descendo as vielas desolado, intercaladas com polícia armada subindo o morro.

 

12. EXT. SAÍDA DA ESCOLA – DIA

 

Carlos, Buga e Alice conversam.

 

ALICE

Tô te achando esquisito, Carlos. O que tá acontecendo?

 

CARLOS

Meu pai foi buscar meu irmão lá no QG da facção.

 

BUGA

Você falou pra ele, mano? Por quê você fez isso?  Todo mundo armado lá. Ninguém quer saber quem é pai de quem!

 

CARLOS

Eu não tive escolha. Ele já sabia que a gente seguiu o Júlio.

 

ALICE

Mas como ele soube?

 

CARLOS

Alguém do bar viu a gente subir atrás do Júlio ontem.

 

BUGA

A famosa Rádio favela.

 

Alice abraça Carlos. Ele sorri pra ela.

 

Tiros começam a ser ouvidos.

 

Carlos se assusta, acelera o passo e os deixa para trás, quebrando a 4ª parede.

 

CARLOS (V.O.)

Tiro aqui é coisa corriqueira. A gente convive com essa guerra do tráfico diariamente. Mas dessa vez foi diferente, eles me atravessaram a alma. 

 

 

Carlos começa a correr pelas ruas em direção à sua casa. Clip de img de traficantes e policia trocando tiros, imgs do seu Antonio descendo pelas ruelas e Carlos correndo e mãe de carlos aflita orando em casa.

 

 

13. EXT. RUA DA FAVELA – DIA

 

Um drone para no ar.

 

Um tiro ecoa.

 

Seu Antônio é atingido pelas costas.

 

Tudo em câmera lenta.

 

Carlos chega correndo e se joga em cima do corpo do pai chorando.

 

Volta à CENA 1.

Tela preta, policia, tiros, gritos, correria, barulho de carro, janelas fechando. De repente um silêncio “ensurdecedor”. A imagem entra em câmera lenta o caos na favela. Agora não tem áudio, somente a img em câmera lenta e um “barulho"de tensão, como se fosse um grito sufocado. Polciais se retirando da favela, pessoas feridas, assustadas, alguns corpos sem vida pelo chão.

A mãe de carlos corre aos berros e choro que não se podem ouvir em direção ao seu filho, que se encontra debruçado e cima de um corpo sem vida no chão. Eles se abraçam em um choro doído, sem voz. 

Tela preta.

 

 

14. INT. CASA – VELÓRIO – NOITE

 

Caixão simples no centro da sala.

 

Som abafado de rezas, orações. Cantos religiosos.

 

Carlos encara a câmera.

 

CARLOS (V.O.)

Até aqui nada em especial, uma história triste de um jovem preto que mora na favela… traficantes, facção, polícia, tiros e morte. Clichê. Mas a partir de agora, eu vou estar sozinho. Não tenho mais meu pai para me cuidar, escolher por mim. Sou eu e ela, que também precisa ser cuidada. Vou estar sozinho nas principais escolhas da minha vida. Quer dizer, sozinho não. Vocês serão meus cúmplices.

 

Buga e Alice entram. Abraços.

 

ALICE

Sinto muito, Carlos.

 

BUGA

Tamo aqui, irmão.

 

Carlos sai para respirar.

 

Vê Júlio rondando a casa.

 

CARLOS

Suma daqui! Você matou nosso pai! Bandido!

 

Carlos cai no choro. Júlio se afasta, abalado.

 

BLACK.

 

 

 

15. EXT. RUA DA FAVELA – DIA

 

Carlos caminha para a escola.

 

CARLOS (V.O.)

Tô vivo, tô bem, tô bem cansado. Sabe aquela série “Desventuras em Série”? Minha vida tá assim.

De manhã  bem cedo saio para trabalhar na feira, depois vou para escola, arrumo a casa, cuido da mãe e ainda sou cobrado na escola. Não queria já reclamar, mas como que faz, irmão?

 

Imagens rápidas da rotina: mãe doente, feira, escola.

 

16. INT. ESCOLA – SALA DE AULA – DIA

 

A professora conversa com Carlos, olhando nos olhos dele.

 

PROFESSORA

Meu filho, o que está acontecendo com você? Te vejo longe, com a cabeça em outro lugar, seu rendimento caiu muito aqui na escola, muitas faltas. Você ta precisando de alguma coisa?

 

Carlos cai no choro, não consegue falar nada. A professora o abraça, ele se afasta e sai correndo sem olhar pra trás.

 

 

17. EXT. SAÍDA DA ESCOLA – DIA

 

Carlos sai da escola muito abalado e tromba com Júlio. 

 

Júlio ostenta roupas de marca e tênis novo.

 

O irmão tenta convencê-lo a entrar no tráfico, trabalhar com ele.

 

Entrega um celular na mão dele para ele ligar em uma emergência e sai andando.

 

JULIO

Mano me deixa te ajudar, eu sou seu irmão. 

 

CARLOS

Eu não preciso de ajuda de bandido?

 

JULIO

O bandido aqui quer te tirar dessa miséria que você e a nossa mãe vivem. Como vc vai fazer para se sustentar? Como? Vai arrumar um emprego onde? Como vai se virar? Aqui ninguém ta nem ai pra gente como a gente. Se eu ou vc morrer, é só mais um…ou menos um. 

 

CARLOS

E o quê é melhor? Ser escravo da vida ou do tráfico?

 

JULIO

Eu não sou mané pra ser escravo. Eu ainda vou mandar nisso tudo aqui.

 

CARLOS

Vc vai é morrer, Julio.  Com uma bala da policia ou uma bala dos bandidos, seu destino é certo.

 

JULIO

Igual nosso pai que sempre trabalhou e nunca saiu dessa miséria? Escuta uma coisa, Carlos: todos nós vamos morrer um dia. Mas morrer de fome eu me recuso.

Júlio joga um celular na mochila de Carlos

JULIO

Se precisar de alguma coisa, me liga. Tem meu número salvo aí…

 

Carlos tenta recusar, mas Julio sai andando sem olhar pra trás.

 

 

18. INT. CASA DE CARLOS – NOITE

 

Carlos chega em casa e só tem na dispensa um miojo para comer e água da torneira para beber.

 

Mãe de Carlos cada vez mais fraca e com depressão

 

CARLOS

Boa noite mãe, ta melhor? Como foi seu dia?

 

Mãe responde com voz fraca.

 

MÃE

Não se preocupe comigo, meu filho. Vou ficar bem.

 

CARLOS

Você ta com fome? Vou fazer algo para você comer.

 

MÃE

Eu já comi, meu filho. Estou bem.

 

CARLOS

Eu sei que você não comeu, mãe. Precisa comer.

 

Carlos faz o jantar com o que tinha em casa e serve a mãe na mesa.

MÃE

E você, não vai comer, Carlos?

 

CARLOS

Eu já comi na escola. 

 

Dona Preta termina de comer, toma seu remédio e Carlos a coloca para dormir.

 

Carlos se senta na cama e quebra a quarta parede, olhando para a câmera, questionando

 

CARLOS (V.O.)

FOME. Dormir com fome. Já aconteceu com vocês? Espero que não. Mas o pior de dormir com fome é não saber o que vai comer amanhã.

 

Carlos levanta da cama nervoso, pensativo, dá uma volta pelo quarto e volta a encarara a câmera

 

CARLOS (V.O.)

E o  Julio lá de tênis novo , vivendo no bom. Eu juro que eu to tentando fazer a coisa certa. Mas a coisa certa nem sempre é justa.

 

Às vezes eu acho que deveria aceitar a proposta do meu irmão.

E vocês, o que fariam no meu lugar?

 

TELA PRETA.

 

INTERATIVIDADE 1:​​​​​​

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